terça-feira, 29 de setembro de 2009

LUCILIA CAVALCANTI: OS VESTIDOS PERDIDOS


É com um prazer enorme (aquele que satisfaz a ponto de nos acharmos o máximo) que inauguro hoje uma série de contos, crônicas e poesias de Lucilia Cavalcanti. Assim farei em todas as quintas-feiras que O “butecólico” existir, ou – obviamente – até quando ela permitir.

Antes de contá-los como conheci Lucilia e a razão pela qual me apeguei aos seus escritos, deixo-lhes uma breve apresentação desta notável poetisa, paulistana de coração. Esta jóia que está prestes a completar setenta e sete anos nasceu no dia 31 de outubro de 1933, na cidade de Garanhuns, em Pernambuco. Aos vinte e seis anos, saiu de sua cidade natal para morar na zona norte de São Paulo, onde trabalhou como secretária correspondente (neste momento, Lucilia já escrevia seus textos, mas os julgavam bobos). Depois de dominar a rotina administrativa, passou a atuar em uma imobiliária paulista, até se aposentar como gerente de condomínios, quando pode - aí sim - se dedicar mais à literatura, dando corda ao talento.

Cavalcanti sempre teve agudo apreço pela leitura das obras de autores, como, por exemplo, Machado de Assis, Lima Barreto, Eça de Queirós, José de Alencar, Castro Alves, Érico Veríssimo, João Ubaldo, Luiz Fernando Veríssimo (um dos que mais lhe seduz), Rubem Alves e Fernando Pessoa. Segundo sua filha Elaine (À Elaine dedicarei uma postagem exclusiva, pois estarei tratando de uma grande amiga. Mulher combativa, ética, coerente com seus princípios – e que princípios -, uma das pessoas mais especiais que já conheci...) – também Cavalcanti, é claro -, a mãe já devorou todos os livros de José Saramago. Ultimamente, Lucilia esta se entregando aos textos de Aldir Blanc (este – o gosto por Aldir - é um dos motivos da nossa aproximação), de quem já era fã na parte musical.

Por falar em música, Dorival Cayme, Francisco Alves, Noel Rosa, Lupicínio Rodrigues, Adoniran Barbosa, Cartola, Baden Powell, Chico Buarque, Elis Regina, Maysa e João Bosco estão entre seus artistas preferidos.

Já ia me esquecendo, mas conheci Lucilia por causa da minha amizade com Elaine (aquela que merece uma postagem extra), quando em uma de nossas trocas de e-mail, ela me relatou sobre os escritos. Daí, parti para leiutura quase diária de seus textos. Depois, tive a oportunidade de falar com ela por telefone, onde pude comprovar a docilidade, a brandura na fala, a delicadeza sem pieguice, mas, infelizmente, não a conheço pessoalmente (ainda não).
Minha exaltação e devoção ao Rio de Janeiro, à Ilha do Governador, ao subúrbio, ao botequim carioca na sua forma mais genuína, não poderiam minorar minha vontade de trazer aqui, em O “butecólico”, as postagens dessa paulistana (ou paulista, como queiram, já que para nós acaba sendo a mesma coisa), quando temos em comum o amor pelas coisas simples, pelo logradouro, pela esquina, pela praça, pela avenida... seja ela a Rio Branco ou a Paulista.

p.s: os textos da autora podem ser lidos no site
RECANTO DAS LETRAS ou ainda no TALENTOS DA MATURIDADE, onde Lucilia concorre ao prêmio máximo.

Vou dar início com a crônica OS VESTIDOS PERDIDOS


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"OS VESTIDOS PERDIDOS

Até que enfim encontramos a casa que tanto queríamos: ampla e arejada, edificada em um grande terreno arborizado com várias espécies, inclusive as frutíferas, além de um belo jardim, como sempre fora o meu sonho desde criança quando ia à casa de minhas tias. Agora ele estava ali à minha frente, inteirinho meu. No interior da casa há grandes salas e quartos espaçosos com janelas para a varanda lateral ( esqueci de mencionar que a casa é avarandada em todo o seu exterior). A copa-cozinha lembra a das grandes mansões descritas nos romances,
Estamos morando aqui há pouco tempo e minha família resolveu organizar uma festa para receber, na nova casa, os parentes e os amigos mais íntimos. O corre-corre dos preparativos deixa as pessoas agitadas, preocupadas para que tudo esteja perfeito nos seus mínimos detalhes. É uma azáfama infernal que me causa atordoamento, e, para fugir um pouco do burburinho, resolvo escolher a roupa que usarei logo mais. Vou então para meu quarto, abro o armário, uma linda peça de jacarandá, em busca do meu vestido preto de tafetá “tomara que caia” e o respectivo bolero rosa com aplicações de renda, mas não o encontro. Opto pelo cinza, de seda, com o corpo todo bordado em “Rechelieu” (aquele que minha madrinha fez para meu aniversário) e também não o encontro.
Nossa, que arrumação o pessoal fez nesta casa, que não consigo encontrar nada? Verifico nas gavetas da cômoda e lá não encontro o que procuro. Ah!... acho que minha irmã deve ter pego alguns dos meus vestidos! Vou ao quarto dela, porém lá não os encontro. Volto a procurar no meu quarto inutilmente. Lembro então do vestido de cambraia de linho azul, de corpo justo abrindo-se em nesgas vazadas por renda, formando uma ampla saia. Nada! Também aqui ele não está. Parece que minhas roupas sumiram de repente, num passe de mágica. Nem o vestido vermelho, com frisos brancos, nem o lilás, nem o estampado com miosótis e nem mesmo aquele verde, do qual não gosto muito, mas que em último caso serviria. Já estou desapontada e alguém grita na porta do quarto para eu me apressar, pois os convidados já estão chegando, Estou a ponto de chorar e sem alguém para me ajudar nesta situação.
Vó, você está bem? Você estava resmungando tão aflita, está bem mesmo? (era a voz de minha neta com quem divido o quarto). Sim querida, estou bem. Foi só um pesadelo, coisas de velha, durma tranquila, boa noite.
Estou sentada na cama e ainda permanece em mim aquela sensação frustante de quem não encontra o que tanto e tão ansiosamente procura. Aqueles vestidos ficaram perdidos no tempo e só existem agora no velho baú de minhas lembranças. Ah!, ia esquecendo, a casa também."

Lucilia Cavalcanti
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Inté.

9 comentários:

Ana Maria disse...

Rodrigoo!! que prazer imenso!! Começo hj a ler esse Blog maravilhoso (perdoa, mas ainda ñ tinha encontrado um tempo pra vir aqui sossegada!!) entro aqui despretenciosamente e me deparo com a Foto da Lucilia e o texto e poema maravilhoso!!!

Mto orgulho dessa senhora tão jovem que é um presente pra todos nós.. amo tb seus poemas suas cronicas, e todos seus escritos!!!

Ro! que Blog lindo! e que delicadeza e sensibilidade a sua em homenagear essa mulher tão linda que é a Lucilia!!!

Vou agora aos poucos ler todo esse Blog!!Prometo entrar todos os dias!!!!!

parabens e estou mto emocionada!!!

Elaine disse...

Rodrigo, querido!! Estou realmente emocionada.. não sei o que dizer. Só tenho que te agradecer pelo carinho e a sua gentileza com a Lucilia..E agradecer a Deus pela sua amizade..Assim que ela voltar de viagem, com certeza vai deixar um comentário. Obrigada de coração Amigo!! beijos

Laine disse...

Nossa, é fantástico ser seguidora do Butecólico...poesia pura, até nas crônicas.
Valeu, Rodrigo, Lucilia é nacional!

Rodrigo Nonno disse...

Opa, Ana!

Lucilia realmante é linda. Essa beleza me deixa muito confortável para falar dela, e pendurar aqui seus textos que nos agradam tanto.

É uma honra para mim contar com suas visitas e seus comentários, minha cara Ana. Espero por você aqui. A casa é sua também.

Bjs

Rodrigo Nonno disse...

Elaine,

você tem que agradecer à sua mãe, não a mim.

Ela sim merece felicitações. Percebemos por você, pelo seus princípios - é que pricípios (como já disse no texto)- que Lucilia, além de maravilhosa, é uma mãe de primeira.

Me orgulho muito de poder ser amigo de vocês.

Grande beijos a vocês.

Rodrigo Nonno disse...

Laine ..., querida !

Você é - geograficamente, até mesmo por conhecer Paquetá como a palma da própria mão (graças ao Carlos, segundo soube por fontes fidedgnas) - a minha amiga mais próxima deste grupo maravilhoso que ajudo a compor com muita alegria.

De coração, peço-lhe que me ajude a aparar as arestas disso aqui, sempre que achar algo que queira me dizer.

Ter você e meu amigo Carlos por perto é um luxuoso privilégio.

Da Lucilia, nem preciso dizer mais nada , né ?


Grande beijo.

lucilia disse...

Oi Rodrigo, fiquei encantada com o que você generosamente escreveu a meu respeito, Somente uma pessoa especial como você é capaz de ver tantas qualidades importantes, numa pessoa tão humilde como eu.Sou apenas uma velha criatura que gosta de escrever para não ser esquecida qando tiver de fazer a grande viagem sem volta.Entrei no seu blog e gostei muito de tudo que vi.Você é mesmo um gênio.Parabens-beijos
Lucilia

Rodrigo Nonno disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Rodrigo Nonno disse...

Opa, minha caríssima Lucilia!

Não precisa ser gênio, sequer inteligente, para notar seu valor, ou a importância de seus escritos.

Necessita-se é de bom gosto e sensibilidade.

Por falar nisso, hoje é dia de Lucilia em O "butecólico".

Grande beijo, Lucilia.