terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Ô SORTE!" II

Hoje o nosso “butecólico” vive um momento especial. No dia 23 de maio de 2007, iniciamos os escritos deste blog. Abrimos – posso dizer – com chave de ouro, reverenciando o importantíssimo - e ilustríssimo – morador, da Ilha do Governador, Wilson Das Neves (como podem ver aqui). Nascido na Glória, na Rua Benjamin Constant, número 144, em 14 de junho de 1936, Das Neves carrega para todo canto o nome do Império Serrano, escola que é apaixonado desde garoto. Porém, Seu Wilson (como o chamei durante todo o tempo) também se orgulha em dizer que mora na Ilha do Governador há mais de trinta e cinco anos.

Na primeira postagem deste blog, eu contava sobre a emoção quase inenarrável, que sentiria ao encontrá-lo por algum canto, pois – sempre deixei isso bem claro - sou fã de carteirinha do notável sambista, compositor, baterista e tudo mais ... Pois é, confesso que o nervosismo tomou conta de mim - tudo isso ficou escancaradamente à mostra em minhas mãos trêmulas e suadas, mas após respirar fundo muitas vezes, acabou dando certo. Por intermédio do meu irmão Blade - que divide com pouquíssimos o título de melhor percussionista da Ilha -, consegui o telefone do grande parceiro de Paulo César Pinheiro, e dono de dois discos – já -memoráveis: O Som Sagrado de Wilson das Neves e Brasão de Orfeu.

Wilson das Neves já abrilhantou discos de mais de – pasmem! – seiscentos (isso mesmo: 600) artistas, e ocupa, com muita satisfação e rara competência, o posto de baterista de Chico Buarque. Não é meu desejo, nem poderíamos (já reconhecendo a debilidade intelectual do autor deste blog), postar (pelo menos, por meus conhecimentos) a ficha de Das Neves, mas deixo
aqui, no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, todas - ou quase todas - as credenciais do nosso convidado de hoje.

Conforme divulguei em meu
twitter, por muito pouco não perdi os relatos deste encontro. Uma pane em meu computador me fez suar frio. Quando já havia me dado por vencido, após dois dias de procura - acredito que por intuição - me recordei que havia separado uma cópia do registro num desses cartões de memória (desses pequeninos que comportam o mundo em seu interior, usados no celular). Mas só me lembrei deste ato salvador após já ter remarcado com Seu Wilson. Bom, tudo deu certo.

Dando seqüência à prometida série de entrevistas (iniciada
aqui, com Domênico Aversa, depois aqui, com o Mestre Casquinha da Portela), a baixo, transcrevo a minha prazerosa conversa com Wilson das Neves, além de postar – obviamente - a tal filmagem. Notem a bela homenagem feita por ele aos insubstituíveis Ciro Monteiro, Roberto Silva, Jamelão, João Nogueira, Mestre Marçal, e Luiz Carlos da Vila. Isso só comprova o respeito que Das Neves tem por esses – também – mestres.
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RN: Como foi a chegada ao Império Serrano, que razão o fez ser integrante da escola?
WN: É a escola que eu aprendi a gostar, né? Aminha mãe era da ala das baianas do Império, então a tendência é a gente seguir aquela... Junta o útil ao agradável. Gosto da cor, do verde. Eu fui tudo lá. Fui ritmista, diretor de bateria, depois passei a ser presidente da ala de compositores, benemérito da mesma ala, fui vice-presidente cultural, e hoje, sou benemérito. São quarenta anos no Império Serrano.

RN: No início, o senhor já compunha a Orquestra do Teatro Municipal?
WN: Na verdade, eu passei a freqüentar mais a escola depois que me emancipei musicalmente. No início, eu trabalhava muito e não tinha muito tempo, pois os ensaios da escola eram no sábado, justamente quando eu estava trabalhando, gravando a semana inteira. Eu viajava muito, pois trabalhava com a Elis Regina, com a Elizeth Cardoso. Sábado era o melhor dia de ganhar dinheiro, mas o dia que eu diminui um pouco, eu passei a freqüentar mais a escola.

RN: O Império influenciou na sua tendência ao samba?
WN: Sim, mas eu comecei a estudar música em 1954, e naquela época você não escolhia gênero não, ou se tocava tudo, ou não se tocava nada. Eu tocava tudo, mas meu negócio sempre foi samba, pois fui criado no meio de samba, no Candomblé, na nação Ketu, então comecei a gostar do batuque, não tinha jeito. Se eu não fosse baterista, seria baterista (risos).

RN: E a Orquestra da Rádio Nacional?
WN: Isso foi em 1962. Eu fui convidado para trabalhar lá. A Rádio Nacional tinha cinco bateristas, mas três deles foram para a Orquestra Sinfônica do Ministério da Educação, aí entraram outros três, um desses era eu. Hoje em dia, nem se vê mais os músicos, você grava aqui e o cara na Europa, nem se sabe.

RN: Com que artista o senhor mais gravou?
WN: Eu gravei com mais de seiscentos artistas. Não tenho condições de lhe dizer assim... Com a Clara Nunes, gravei tudo; com o João (Nogueira), gravava tudo; gravava sempre com Ataulfo Alves. Em todas as gravadoras, tinham casts de artistas... Eu era o sangue novo que estava chegando. Se não, acaba, né?

RN: E as composições, Seu Wilson, como o senhor virou compositor?
WN: Tenho cinqüenta e cinco anos de profissão e sempre tive minhas coisinhas, mas nunca havia mostrado a ninguém, pois o músico não gosta de mostrar suas composições, tem vergonha, pois está acostumado a tocar coisa boa, e acha que sua própria música não presta. Então, eu fazia e guardava, até que um dia, nasceu minha neta e fiz uma música pra ela, quando fui gravá-la o Rafael Rabello me perguntou a razão pela qual eu não a mostrava ao Paulo Cesar Pinheiro. Disse a ele que não poderia, pois não tinha tal liberdade... São uns caras respeitados: Chico Buarque, o Aldir Blanc, como eu ia mostrar música para eles? Música eles tinham de sobra, e eu achava que seria mais um a mostrar letras pra eles, mas aí, o Paulinho (Cesar Pinheiro) me ligou pedindo e eu levei três: O Samba é Meu Dom, Partido do Tempo... Depois gravei treze músicas com ele. Hoje, tenho muito mais de sessenta músicas com Paulinho.

RN: Então ele se tornou o principal?
WN: Eu não digo principal, pois todos são. Digo que é o mais atuante. Com Chico eu tenho uma só, mas é uma vitória. Depois... Moacyr Luz; Aldir Blanc; Ivo Lancelotti; Claudio Jorge; Carlinhos Vergueiro; Beth Carvalho; - meu grande parceiro, estou aqui, com ele no peito, que pra mi, não morre, ta vivo ainda - Luiz Carlos da Vila; Nei Lopes; Nelson Rufino; agora estou fazendo uma com Marcelo D2; Arlindo Cruz; Elton Medeiros, Walter Alfaiate, Tereza Cristina; Victor Hugo Bezerra, do Quinteto em Branco e Preto; Tuninho Nascimento ... Com todos esses eu tenho música, fora os que não me lembro agora. É aquele negócio: a gente só sabe fazer isso (risos). Agora estou fazendo música também com Nelson Sargento. Tentei fazer com o Guilherme de Brito. Entreguei a melodia pra ele, mas ele faleceu dizendo que estava me devendo (risos).

RN: Agora, existe aquela sensação de perda de tempo, a sensação de achar que devia ter mostrado suas músicas antes?
WN: Não! Eu acredito que tudo é no tempo certo, a gente não antecipa nada. Não adianta ir naquela ânsia e depois não acontecer nada, pois não estava na hora. Tem que se preparar pra gravar coisa boa, de qualidade. O Samba é Meu Dom, hoje, já tem cinco gravações. Gosto mais de escutar minha música gravada por outro do que na minha própria voz.

RN: Eu não posso deixar de perguntar sobre seu sentimento pela União da Ilha.
WN: Aminha bandeira é verde e branca. Tenho ligação de carinho e amizade pela União da Ilha, inclusive já fui homenageado lá pela ala de compositores, mas escola de samba não se troca, é como time de futebol, é como o Flamengo. O Flamengo me deixou ser flamenguista, como o Império Serrano me deixou ser imperiano.

RN: Como foi feita a música que homenageia o Mestre Marçal ?
WN: Foi idéia do Zé Trambique, meu parceiro em duas músicas já. O e eu fizemos e entregamos ao Paulo Cesar Pinheiro ... Morei fora do país durante muito tempo com Marçal, meu grande amigo.

ASSISTA AGORA O RESTANTE DA ENTREVISTA

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Inté.

6 comentários:

Tuninho disse...

Rodrigo,

O fato do Sr Wilson "abominável homen" das Neves escolher a Ilha para fixar residência, é mais um motivo de orgulho pros insulanos.

Abraço!

Rodrigo Nonno disse...

Sim , tuninho. É mais um que abrilhanta, que enche de orgulho , a no ssa querida Ilha.

Forte abraço, caro amigo.

O Armazém nos espera .

Inté

Juliano disse...

É uma satisfação encontrar essa entrevista por aqui. Não conhecia o blog, mas já percebi que minha visitas serão constantes.
Um abraço!

Rodrigo Nonno disse...

Opa, Juliano!

Fico muito feliz que tenha gostado. A casa é sua.

Pena eu não estar postantdo mais com ferquência, mas coisas novas estão por vir, garanto.

Por enquanto veja as outras entrevistas.

Forte abraço!

Anônimo disse...

Esse coroa é foda, tive a oportunidade de assisti-lo na Leda Nagle diga-se de passagem um dos melhores programas da televisão brasileira e no final ele me canta o Samba é meu Dom.
Mais uma vez obrigado meu amigo Rodrigo por me ensinar a escutar os verdadeiros arquitetos da Música e do samba.
Técão

Rodrigo Nonno disse...

Tecão, você é meu irmão. A casa aqui é sua ...

Só não vamos dar a (Ô) sorte de tomar uma com W das Neves, pois me contaste que só bebe em casa e não vai aos butiquins insulanos.

Beijos.